COLUNA Adriano Lima Neves

Cadê a Pedra da Dona Nina?


Por Adriano Lima Neves - 
Tenho acompanhado com atenção os muitos comentários nas redes sociais sobre a obra que promete ser um paliativo para a melhora do fluxo de veículos na nossa principal avenida do centro de Santa Leopoldina. Trata-se de um aterro que está sendo feito e que dará origem a um estacionamento à beira do nosso histórico rio Santa Maria. 

Se essa obra realmente atingirá o seu objetivo plenamente não posso ainda afirmar, mas já adianto que, sozinha, não será de grande valia, pois certamente necessitará de outras ações conjuntas como, por exemplo, a proibição de estacionamento ao longo de toda a avenida. Eu torço para que todas essas ações conjuntas sejam implantadas e realmente consigam resolver o que é talvez o maior problema de mobilidade urbana de todo o nosso estado. Principalmente, que se torne realidade a prometida construção de mais uma ponte sobre o rio Santa Maria. 

Voltando aos comentários que tenho acompanhado nas redes sociais, vejo que entre as preocupações mais apontadas pelos moradores estão as questões ambientais, lideradas pela preocupação com as enchentes, e a pouca preocupação da obra com a preservação da rica história desse rio, e de tudo o que representa esse antigo porto fluvial e a saga dos canoeiros do Rio Santa Maria para a história econômica do estado do Espírito Santo. 

O diminuto volume atual de água que fluiu lentamente no nosso histórico rio Santa Maria da Vitória e as suas sufocadas e assoreadas margens já nos mostram que os danos ambientais que esse rio sofreu já chegaram em um ponto sem volta. E ficou impossível convencer um turista que aqui chega que esse rio já foi caudaloso o bastante para ser navegável, e que deslizaram por suas águas grandes canoas, que comportavam até 120 sacas de café por viagem até o Porto de Vitória.

Mesmo a obra já tendo enterrado de vez a “Pedra da Dona Nina” e o ancoradouro “Nossa Senhora do Patrocínio”, que virou “Porto Real” por ocasião da visita de Dom Pedro II, em 1860, há ainda naquele histórico local um monumento que é o testemunho do período da riqueza que Santa Leopoldina viveu durante cerca de 60 anos, entre o final do século XIX e início do século XX, tempo que durou a intensa movimentação de cargas entre o Porto do Cachoeiro e o Porto de Vitória. É o centenário cais 17 de abril, popularmente conhecido como bica de desembarque de café. 

Hoje ele é apenas um velho pedaço de concreto, esquecido, tomado pelo mato e praticamente ignorado pelas pessoas que passam diariamente sobre a Ponte Paulo Antônio Médice. Com exceção dos turistas, estudantes e pesquisadores que vem a Santa Leopoldina com o objetivo específico de conhecer a sua história, ninguém mais leva muito a sério aquela bica corroída pelo tempo. Muito menos a empresa que está executando a obra, a qual nem culpo, pois certamente não conhece a importância histórica do local em que implantou mais um dos seus canteiros de obra. 

Mas a Administração Pública tem o dever de conhecer e preservar o patrimônio histórico cultural de nossa cidade. E a preservação do Cais 17 de Abril é o mínimo que se pode dar como contrapartida a toda a descaracterização causada por essa obra ao Patrimônio Histórico de Santa Leopoldina. 

Sabemos todos que o progresso de uma cidade demanda ações que solucionem os problemas que surgem com a modernidade e com o crescimento das atividades comercias e industriais. E o aumento do fluxo de veículos em nossa cidade é um desses reflexos. 

Jamais seria contra qualquer obra que vise a melhoria da vida das pessoas que escolheram Santa Leopoldina para morar e criar os seus filhos. O que a sociedade leopoldinense não pode concordar é que essas obras destruam a pouca memória que sobrou dos tempos áureos de nossa cidade, assim como fizeram com o Parque da Independência. A preservação e a revitalização desses locais históricos são o nosso grande “produto turístico” a ser vendido para todo o Brasil, a exemplo de várias cidades que só fazem aumentar o seu fluxo turístico a cada ano com essas ações, juntamente com o seu desenvolvimento econômico e social. E Santa Leopoldina parece não enxergar esse filão de desenvolvimento, insistindo na velha política do assistencialismo, que não levará a nossa cidade a lugar algum. Talvez ao fundo do poço. 

Portanto, o que a população de Santa Leopoldina deve exigir como contrapartida da Administração Pública é a preservação e a revitalização do Cais 17 de Abril, a bica dos canoeiros, com uma bela pintura e iluminação de todo o seu entorno, como forma de transformar o nosso antigo Porto do Cachoeiro em um lugar agradável, humanizado, um ponto de visita dos moradores e turistas aos finais de tarde, e não somente um local simplesmente para estacionar automóveis. Antes de tudo tem que atender as pessoas. 

Sem isso, confesso que mudo de opinião e passo a ser a favor da interdição total da obra...
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