CIDADES

Como as cidades podem enfrentar alagamentos frequentes e o calorão? Instituto de Arquitetos do Brasil no ES explica

Foto: Luciney Araújo/G1

Sol forte, calor intenso e muita chuva. Segundo os meteorologistas do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), o verão de 2025 deverá marcar temperaturas acima da média no Brasil, assim sendo um período mais quente do que o anterior. Além das temperaturas, a chuva também tende a ser maior que o habitual para a estação do ano em boa parte do país. Eventos como este tornam o pensamento sobre métodos para controlar o aquecimento urbano cada vez mais urgente.

Especialistas apontam que a cada ano, as chuvas torrenciais, os alagamentos, os deslizamentos de terra e os períodos prolongados de seca se tornam mais frequentes e intensos. Assim, o que antes parecia uma raridade se transformou em um problema recorrente e global, fruto, em grande parte, das práticas desordenadas de urbanização e da relação desrespeitosa que o ser humano construiu com o meio ambiente.

Segundo o arquiteto e urbanista, ex-presidente e conselheiro vitalício do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB/ES), Tito Carvalho, é fundamental que a sociedade abandone a mentalidade de surpresa diante dessas intercorrências climáticas. “Sabemos, com clareza, que elas são inevitáveis e tendem a se intensificar. O que precisamos agora é uma mudança de atitude para lidar com a realidade que já nos afeta diretamente. Para isso, é essencial compreender que somos, em grande parte, responsáveis por esse cenário, e a transformação começa na nossa relação com o ambiente urbano”, explica.

Carvalho esclarece que, uma das propostas mais contundentes para enfrentar o aquecimento urbano é buscar soluções na própria natureza. Ou seja, a cidade não é um organismo isolado, ela é parte de um ecossistema maior, onde a água, o ar e a vegetação desempenham papéis cruciais. Dessa forma, a relação simbiótica entre a cidade e a natureza precisa ser resgatada, com o objetivo de criar ambientes urbanos mais resilientes e sustentáveis.

“Cidades do mundo todo estão implementando soluções baseadas em princípios ecológicos, como a criação de parques lineares e áreas esponja, capazes de absorver a água das chuvas e liberar lentamente para o sistema de drenagem. Ao integrar os espaços urbanos com a natureza, podemos não só mitigar os efeitos do aquecimento global, mas também promover um ambiente de vida mais saudável e equilibrado", complementa.

Ainda, o arquiteto informa que, o Brasil, nas últimas décadas, passou de uma nação predominantemente rural para uma sociedade 87% urbana, com cerca de 220 milhões de habitantes. Assim, como consequência da urbanização acelerada, foram modeladas cidades desestruturadas e vulneráveis.


“O país ocupou seus centros urbanos de maneira impulsiva. Até hoje, muitas soluções que tentam resolver esses problemas são pontuais, como sistemas de bombeamento para drenar as águas das chuvas. Mas sabemos que estes sistemas isoladamente são ineficazes diante da magnitude dos desafios. O aumento da intensidade das chuvas e o acúmulo de resíduos nas cidades exigem uma abordagem, que considere não apenas as necessidades urbanas, mas também o meio ambiente natural ao seu redor”, defende.


O conselheiro relata que por muito tempo em muitos lugares o foco do planejamento esteve apenas na construção de vias e edificações, sem considerar o impacto ambiental ou a qualidade de vida das pessoas. Um exemplo disso seria a construção de rodovias e vias expressas sem a implementação de arborização, o que contribui para o aumento das ilhas de calor, especialmente em áreas urbanas densamente povoadas.


Ainda, segundo Carvalho, outro destaque no debate atual é que a integração de resíduos sólidos na geração de energia, como parte de uma matriz energética mais limpa e sustentável, é uma medida importante para reduzir os gases poluentes e as ilhas de calor. “O Brasil ainda usa uma pequena parcela de seus resíduos como fonte de energia (apenas 0,1%), mas o potencial de ampliação dessa prática poderia contribuir significativamente para a redução da poluição atmosférica”.


O arquiteto explica que as cidades precisam de uma mudança urgente e profunda em seu modelo de desenvolvimento, com uma abordagem mais sistêmica e integrada, que envolva tanto o setor público quanto o privado. Alguns exemplos de soluções são a criação de parques, espaços verdes e áreas esponja. Além disso, a recuperação e preservação de rios e áreas de várzea, ao invés de sua canalização e ocupação desordenada, são fundamentais para a prevenção de enchentes e deslizamentos.


“O aquecimento urbano é um reflexo das escolhas que fizemos nas últimas décadas, e os efeitos disso já são visíveis no presente. A boa notícia é que soluções já existem e são viáveis. O que precisamos é aplicar a boa técnica, com responsabilidade compartilhada, e começar a ver a cidade como um organismo vivo, onde o meio ambiente e a urbanização coexistem de forma equilibrada”, finaliza.
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